|
O
e-mail
5o. Capítulo
Posso afirmar que, se não fosse o relógio,
jamais teria noção de que o tempo passara; os pirilampos anunciavam
sempre a presença de um novo alvorecer. Em minha percepção,
sentia-me como era antes, todas as emoções fluíam no corpo da mesma
forma.
Saudade, medo, alegria, angústia, solidão.
Não posso compreender até agora porque não passava o tempo, nem
tão pouco a total ausência de fome e sede. Não
me ocorreu, em nenhum momento, a necessidade de me alimentar. Apenas os meus pensamentos pulsavam constantemente em várias
direções. A expectativa de um acontecimento novo, o movimentar
daquela porta era onde depositava toda a minha energia. Minhas
esperanças estavam naquela sala!
Naquele momento, apareceram, pela 7a. vez, os pirilampos. Sete
dias e Pat não voltara, ninguém adentrara aquela porta. Passei momentos de profunda reflexão sobre a minha vida e tudo que
fizera e deixara de fazer. Meus pensamentos voavam de um lado para o
outro, faltou-me coragem para voltar à escuridão de onde viera,
antes de ter descoberto esta janela, sabia que não encontraria nada
lá. Tudo o que me interessava estaria atrás daquela porta!
Meus pensamentos foram interrompidos quando a porta abriu-se de
repente e Pat novamente aparecera!
-Graças a Deus! Pat! Você voltou!
Um sorriso de alívio e uma sensação de grande conforto tomou conta
de mim!
Mais uma vez, ela cumpriu todo o ritual de limpeza da minha antiga
sala. Acompanhei cada passo como se quisesse curtir aquele momento, o
sol invadiu por horas, através da janela totalmente aberta. A
minha sensação e a alegria eram imensas,
senti o pulsar da vida novamente!
Ela aproximara-se do monitor no momento de limpar a mesa, eu a
via como se estivera diante de uma tela de cinema. Pat estava ali,
onde trabalhara por horas! Passei a mão no vidro, procurando tocá-la! Sem hesitar, tentei me comunicar.
-Quem sabe
agora? - pensei
em voz baixa comigo mesmo!
Pat estava muito melhor, seu semblante
era outro! Depois de tanto refletir eu também já me sentia mais
consciente. Então, comecei a gritar em tom alto, mas sem desespero:
-
Pat! Você pode me ouvir? Pat, eu estou aqui! Estou
te vendo! Hei! Pat! Pat!
Gritei mais alto! Ela não fez nenhum sinal que demonstrasse ter
percebido o que estava acontecendo dentro do monitor, onde eu estava.
-Pat, menina! Não é possível que você não me veja! Eu estou
aqui!
Outras tentativas fiz, mas Pat não me notara!
Conformei-me mesmo sem entender! Ela não me percebia, e eu a
via ali!
Pat acabou seu trabalho, deixou tudo em perfeita ordem como sempre fazia,
puxou a cadeira da escrivaninha e sentou-se diante do monitor. Aquele ato para mim foi uma
marco. No momento em que ela tocou o mouse,
uma energia de vida tomou conta de mim. Algo com certeza, iria
acontecer finalmente! Pat estava abrindo um programa de e-mail no
computador, e foi naquele momento que fiz a grande descoberta!
Como me senti retribuído em ter incentivado a Pat a concluir seu
cursinho de informática!
Eu sempre afirmava para ela: Pat! A
informática pode te trazer vida nova! Que palavras! A vida nova
estava despontando para mim!
Pat levantou o teclado para ter acesso às minhas
senhas. Ali eu tinha um papelzinho colado com alguns lembretes.
Ela abriu o meu e-mail e, naquele instante, tive uma surpresa espantosa,
um fato que iria mudar a minha vida! Tudo seria diferente a partir daquele momento!
Então, começou a ler os e-mails. Eram
dezenas de amigos e amigas com correspondências diárias, trocando
mensagens, histórias, piadas, brincadeiras, assuntos sem
importância, algo interessante. Na verdade, tinha de tudo, era um circuito
contínuo de vai e vem, o que tomava o meu tempo e me mantinha absorvido e entretido por incontáveis horas diante daquele teclado.
Quando
Pat abriu o primeiro e-mail, tive a total consciência do que estava
escrito lá, descobri que meu corpo estava diretamente ligado à maquina, e eu poderia ler as correspondências e interagir com o
equipamento.
Tudo se passava na minha mente, bastava direcionar o
pensamento e estaria diante de cada palavra. Não me preocupei
em entender o que estava acontecendo, tamanha era a minha emoção de
mais uma vez estar diante da minha caixa postal, lendo os e-mails que
meus amigos haviam me enviado neste período, pois não pude mais
responder-lhes.
A
caixa de entrada de mensagens estava cheia! Tinha muito para
ler.
Pat começou então a digitar um e-mail, abriu uma nova correspondência
e começou a escrever:
"Bom
dia, aqui quem vos escreve é a Pat. Sou funcionária do amigo de
vocês que mantinha por amizade a troca de e-mails, com o codinome de
KAPARRA. Sinto informar que há uns 10 dias passados o amigo de vocês
teve uma parada cardíaca súbita e veio a falecer. Estou aguardando
apenas seu irmão chegar, pois mora em outro país. A família do
KAPARRA decidiu vender este apartamento e também tudo o que há
dentro. Apenas senti a necessidade de comunicar-lhes para que não pensem que o KAPARRA simplesmente não responde mais os
e-mails.
Atenciosamente, Pat"
-Não! Pat! Pat! Eu estou aqui, não escreva isso! Pat! Como? Vender o
apartamento com tudo o que tinha dentro? Não, Pat! Pat! Olhe para cá!
Não escreva isso!
Entrei em desespero, era o fim de toda a minha
esperança. Meus
amigos, minha família, minha casa, tudo seria tirado de mim!

Eu estava lendo o e-mail no momento em que ela
digitava. Era como se
tudo acontecesse dentro da minha cabeça, dentro do meu corpo, tinha
perfeita visão de tudo. Eu estava interagindo com a máquina, a eletricidade
corria no meu corpo e todas as informações passavam pela minha consciência.
Não posso explicar como tudo isso é possível, ainda estou confuso!
Pat juntou os endereços, os e-mails de todos os meus amigos da internet,
todas as pessoas que eu conhecia! Então, inseriu no campo "enviar para
todos". Naquele momento entrei em desespero mais uma vez!
-Pat! Pelo amor de Deus! Não faça isso, eu estou aqui.
Estou vivo,
Pat! Não mande este e-mail! Pat! Pat!
Ela não fazia nenhum sinal de que
estivesse me vendo ou ouvindo. Um sentimento de desespero
e solidão me explodiam o coração de dor!
Senti, naquele momento, como se realmente fosse um "morto" para todos os meus
amigos, pois, até então uma chama de esperança era mantida acessa por
mim
naquela sala. Como
poderiam vender meu apartamento? Desligar-me de tudo o que era a minha
vida? O que seria de mim? Não veria mais a minha janela ? A Pat? Tudo
seria uma escuridão à minha volta?
Entrei em pânico enquanto assistia à Pat, sem a menor preocupação com o meu futuro, enviar aquele e-mail.
Cumprindo um ritual simples de reler a carta e corrigir algum eventual
erro, ela passou os olhos sobre as palavras, e eu pude ver suas
pupilas castanhas, atentas, caminhando por entre as linhas do e-mail
que anunciava minha morte. Num gesto
simples e rápido, clicou em enviar.
Segue no 6º Capítulo...
Direito Autoral e
Domínio Reservado Lei: 9.279
DE 14 DE MAIO DE 1996 - Proibida a
reprodução ou publicação.
|